Litoral norte do Espírito Santo: um local abençoado… E também amaldiçoado.

Por Paulo de Souza Lima com contribuições de Luiz Afonso Rosário e Débora Gastal

Aracruz, no litoral do Espírito Santo, é um local abençoado: praias lindíssimas, matas nativas preservadas, muita natureza, pescadores artesanais, culturas tradicionais, pequenas vilas e aldeias indígenas ao redor, povos originários.

Luar na Praia do Coqueiral, em Aracruz. Foto: Paulo de S. Lima

Mas é, ao mesmo tempo, um lugar amaldiçoado. Parece que todo o peso do grande capital extrativista caiu, como um grande martelo, sobre a região e seu povo. A região é marcada pelo conflito e pela violência ao longo de séculos de história. Junto com os Tupinikim, é berço da etnia indígena dos Aimorés, que os portugueses chamavam de Botocudos, conhecidos pela violência com que reprimiam a invasão de suas terras pelos colonizadores brancos. A violência foi tanta que a coroa portuguesa decretou (Carta-Régia de 1809) que os Botocudos fossem exterminados. O decreto imperial nunca foi revogado, apesar dos Botocudos terem sido considerados extintos em 1935, em um último massacre, na época da construção da ferrovia Vitória/Minas. Hoje, a região abriga indígenas das etnias Guarani e Tupiniquim, em um Território Indígena auto-demarcado e homologado em 2.008, com cerca de 20.000 hectares, impactado por florestas de eucaliptos plantados, aterro sanitário, linhas de transmissão de energia, uma ferrovia para transporte de minério da Vale, e um gasoduto da Petrobras.

Cacique Nelson Guarani — Aldeia Boa Esperança. Foto: Paulo de S. Lima

Nos anos 70, instalou-se na região a Aracruz Papel e Celulose, que invadiu, apropriou-se das terras, desalojou indígenas, devastou florestas nativas de Mata Atlântica, com tratores e correntões, para a plantação de eucalipto e fabricação de papel. Nos anos 80 e 90, vieram a Petrobras com suas plataformas de exploração de petróleo, dutos e tanques de armazenagem, aterro sanitário, estradas, entre outros. Em 2011, apareceram empreendimentos relacionados à exploração do pré-sal, como o Estaleiro Jurong Aracruz, que constrói plataformas para exploração de petróleo para a Petrobras.

Navio sonda “Arpoador”, em construção no Estaleiro Jurong Aracruz. Foto: Gabriel de O. Costa via Flickr

E também, a construção do Porto de Barra do Riacho (Portocel), outro enorme empreendimento que compõe o complexo industrial e marítimo da região, construído pela Aracruz Papel e Celulose S/A, atual FIBRIA S/A, para a exportação de papel e celulose, principalmente, para países europeus.

Portocel — Porto de Barra do Riacho. Foto: Wikimedia Commons

Por fim, no final de 2015, o rompimento da barragem da mineradora Samarco — pertencente à Vale e a BHP -, em Mariana (MG), a mais de 800 km de distância, contaminou e matou toda a vida no Rio Doce, que encontra o mar exatamente nessa região.

Foz do Rio Doce, em Regência (ES), em 25 de Fevereiro de 2016. Foto: Paulo de S. Lima

O impacto de toda essa atividade industrial e extrativista foi enorme na região. Foram destruídas, sem possibilidade de recuperação, áreas de mangue, recifes de coral, florestas, praias. Inúmeras espécies foram aniquiladas.

Tartaruga do projeto Tamar, em Regência (ES). Foto: Paulo de S. Lima

O que antes foi conhecida como uma das mais importantes regiões de pesca artesanal do Brasil, hoje vive seu pior momento. A pesca foi proibida em função da contaminação pela lama da Samarco/Vale/BHP, e os pescadores artesanais tradicionais, não têm do que viver. O governo, ao invés de criar soluções para resolver o problema e responsabilizar as grandes indústrias, reprime os pequenos pescadores. A proibição leva à falta de opções de trabalho, que gera violência e o descaminho. A concentração do fluxo de capital para os funcionários dessas grandes empresas faz aumentar o tráfico de drogas e a prostituição, que são enormes problemas enfrentados por essa população, no que parece ser uma política velada de Estado, com a intenção de substituição de comunidades tradicionais.

Barco pesqueiro na região de Regência (ES). Foto: Paulo de S. Lima

Os indígenas da região, apesar de todo o sofrimento que esses empreendimentos têm causado, são o grupo mais bem organizado e mais bem preparado para o enfrentamento e a resistência. Hoje, o que se vê é que o grande capital já não diferencia indígenas e não indígenas. Seu impacto é implacável, sobre toda a população da região.

Reunião com caciques das 10 aldeias Tupinikim e Guarani — Aldeia Caieiras. Foto: Paulo de S. Lima

Localizado bem no centro dos problemas da região, o Estaleiro Jurong Aracruz (EJA), além de ter sido construído sobre uma região de corais (mais importante banco de corais do Atlântico Sul — Lithotamnium calcareum), causou a extinção de espécies que só viviam ali, em Barra do Riacho, Município de Aracruz. Foi construído contrariando todos os pareceres técnico-ambientais, num espaço onde foram encontrados sítios arqueológicos indígenas, numa região de excepcional concentração de algas calcáreas, sendo abrigo de uma espécie de cavalo-marinho (Hippocampus reidi) — decretando o extermínio desta espécie endêmica e da estrela-do-mar (Oreaster reticulatus) — integrante da lista vermelha dos animais em extinção, além do que, o Estaleiro Jurong Aracruz não cumpriu 12 condicionantes ambientais relevantes para evitar impactos ambientais e socioambientais. Mesmo assim, conseguiu a Licença de Operação (LO).

O estaleiro é responsável por fornecer plataformas marítimas para que a Petrobras continue a explorar combustíveis fósseis. A mesma Petrobras que instala plataformas em alto mar, que servem de abrigo aos cardumes de peixes e os deixam fora do alcance dos pescadores artesanais, que são proibidos de chegar a menos de 500 metros delas (as chamadas de áreas de exclusão). Bem em frente ao estaleiro, passa o polêmico gasoduto da Transpetro, que também corta as áreas indígenas, motivo de protestos há anos.

São por esses motivos que a ação planejada para o Estaleiro Jurong Aracruz torna-se emblemática para a campanha “Liberte-se dos Combustíveis Fósseis”, e tem potencial para se tornar a maior manifestação dessa campanha no mundo. Mais de 2.000 manifestantes — principalmente indígenas e pescadores artesanais — estão previstos nessa mobilização, que pretende chamar a atenção do mundo para os absurdos causados pela indústria dos combustíveis fósseis ao meio ambiente e à população desta região.

Junte-se a pessoas de todo o Brasil que, em maio, vão se levantar contra a indústria de combustíveis fósseis — clique aqui.